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Economia solidária e a mudança na forma de consumo

O mundo da moda é muito bom em repaginar tendências. Notem que as calças bocas de sino agora chamadas de calças flare, voltaram aos editoriais. O mesmo aconteceu com as polainas, cintura alta, ombreiras e até (pasmem!) a famigerada pochete ( que não deslanchou, graças a Deus).

Não é tão diferente assim com o que acontece atualmente com a economia solidária. Criada lá no século XIX por causa da revolução industrial que forçou os trabalhadores a se organizarem em cooperativas e alterarem a forma de consumo e sobrevivência daqueles que estavam sendo substituídos por máquinas, a atual realidade do mundo, com crise econômica, desastres natuais e novas formas de trabalho, faz com que a gente questione o antigo modelo de produção que concentra quase toda riqueza do planeta naquele 1% da população mundial. O nome, criado por brasileiros é recente. A ideia, o modelo e os motivos por trás dessa iniciativa, não.

A economia solidária não se confunde com o terceiro setor, ela não é ONG e não visa a ausência de lucro.  O foco é na valorização do ser humano e na divisão equalitária dos rendimentos, não existindo dessa forma, exploração da mão de obra. A autogestão define a economia solidária, onde todos são donos e todos são trabalhadores. O lucro é repartido igualmente, pois entende-se que não há trabalho mais importante do que outro ( e não há mesmo), todos fazem parte de uma engrenagem onde a atividade de um depende da atividade de seu parceiro. Sem produção não há gerência e sem gerência não há produção, simples assim. A Volkswagen não existiria se não fossem os “peões de chão de fábrica” produzindo os carros, assim, como não seria próspera se não fosse bem administrada. São trabalhos complementares e não mais importantes um do que o outro e, portanto, as remunerações não deveriam ser tão discrepantes.

Para os consumidores, é a oportunidade de fazer uso de produtos mais sustentáveis tanto ambientalmente, quanto socialmente. É praticamente trazer para si, a responsabilidade pela mudança no mundo. Muito da concentração de riqueza que temos na atualidade, diz respeito a nossa forma de consumir itens caríssimos que se valem de mão de obra escrava sem ao menos questionar.

Desta forma, não há como separar o modo solidário de produzir e consumir da consciência política. Por favor, não confudam política com politicagem. Ao preferir os pequenos produtores e empreendedores, o poder é retirado das mãos de grandes empresas e latifúndios e incentiva o crescimento de projetos produtivos coletivos, cooperativas populares, cooperativas de coleta e reciclagem, redes de produção, comercialização e consumo, instituições financeiras (Alô Viacredi para quem é do Vale do Itajaí), cooperativas de agricultura familiar, prestação de serviços e muitas outras que garantem trabalho e remuneração dignas às famílias envolvidas.

Em 2014, havia cerca de 30 mil empreendimentos solidários gerando renda e trabalho para mais de dois milhões de brasileiros, movimentando anualmente cerca de R$12 bilhões.

Estão contabilizadas aí, as quebradeiras de coco babaçu que atualmente são em torno de 400 mil mulheres espalhadas principalmente na região norte e nordeste do País. Estas mulheres, encontraram na organização em forma de cooperativas e associações, a valorização do trabalho rural feminino, por meio da exploração sustentável da cadeia produtiva do babaçu e o desenvolvimento de seus produtos, como o mesocarpo (ou farinha de babaçu), óleo, azeite, sabão em barra e pasta de brilho.

Os movimentos sociais que agruparam as quebradeiras de coco babaçu com a missão de organizar as mulheres trabalhadoras para que estas passem a conhecer os seus direitos, defendam as palmeiras de babaçu que eram constantemente queimadas pelos latifundiários e, com isto, promovam melhores condições de vida nas regiões do extrativismo do babaçu, nasceram na segunda metade da década de 80 e desde então, vem travando duras lutas contra fazendeiros, pecuaristas e grandes empresas. Infelizmente, muito sangue já foi derramado nesses embates, mas a realidade atual é bastante promissora, com o empoderamento feminino, cursos para capacitação tanto de produção quanto de gerenciamento, o aumento da renda familiar média mensal que antes estava em torno de R$100,00, estas mulheres tem vencido luta após luta.

O babaçu ainda é um tesouro brasileiro desconhecido pela sua população, o que é muito triste, mas quanto mais a gente fala de economia solidária, quanto mais a gente valoriza os nossos produtos, os nossos trabalhadores e o nosso povo, mais a gente contribui para essa mudança que vem ocorrendo na nossa sociedade.

Seja você como produtor ou como consumidor, você faz parte disso. Orgulhe-se. De pouco em pouco, todos nós estamos mudando o mundo!

 

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