Facilitar: uma questão de coragem

Pergunta-1

 

Uma sala cheia de pessoas. Algumas de braços cruzados, céticas; outras, mais abertas, sorriem. Todas olham para você, atentas para suas próximas palavras e escutando atentamente para saber aonde você vai nos conduzir.

Talvez ninguém diga nada, mas você as escuta: ‘e aí, o que você vai nos facilitar, afinal?’

É preciso coragem. Jogo de cintura e bala na agulha também contam pontos. Mas coragem é o que conquista.

Facilitar, afinal, pode ser uma arte. Mas vamos por partes. Pensando na definição mais prática, facilitação é aquilo que você faz na hora de conduzir uma atividade em grupo. Pense em educadores. Pense em alguém conduzindo uma capacitação onde você trabalha. Naquela palestra excepcional. Não precisa ser a Bel Pesce; pode ser alguém com uma baita ideia e falando para um grupo.

Mas não paremos por aí. O que é preciso para facilitar bem? Seria uma questão de talento, ou de mágica? Talvez dominar uma oratória impecável, ou ser a referência absoluta do assunto que você vai discutir?

Não exatamente. Você facilita, e isso é bem diferente de ser um livro-texto ambulante.

Particularmente, gosto da ideia de fazer pessoas convergirem para um mesmo ponto. Pode ser tanto a partir de algo que as pessoas já saibam — e aí você pode pensar em um grupo de pessoas construindo coletivamente o planejamento de sua equipe —, ou de algo que elas vão aprender juntas. E aí o ponto é você quem escolhe.

Algumas dinâmicas são legais para isso. O World Café, por exemplo, é um método de conversa, com uma intenção de polinizar a cabeça das pessoas com uma pluralidade de pontos de vistas. O Aquário é outro exemplo: uma roda de conversa também aberta, com perguntas bem construídas e um processo democrático de fala e escuta orientadas. Ou o Pro-Action Café: parecido com o World Café, mas com a finalidade concreta de desenhar ou afinar um projeto.

Vou tentar fugir de ser incipiente. Essas são somente as finalidades de cada metodologia, eu diria. Tem muito mais para se explorar em cada uma delas. O importante é que, nessas breves frases e ideias, já vai ficando claro o quão importante é saber conduzir um grupo de um jeito coeso e planejado.

Mágica e talento nato não são o que você precisa, percebe?

O ponto é ter empatia. Ser você mesmo. Entender as pessoas, e o problema da discussão em comum. E algumas outras ideias ajudam.

Gosto da Abordagem Humanista de Carl Rogers, por exemplo. Não sei o quanto ela cabe em algumas linhas, mas talvez a gente possa buscar um gostinho. E saiba: não sou psicólogo e tampouco estudo a fundo o tema. Mas para inspirar e começar a buscar uma base, pouco a pouco, essa visão nos ajuda a pensar na facilitação com alguma base a mais. E facilitar também é aprender.

Nesse modelo didático, é importante visualizar o ambiente. E aí fique à vontade para dividi-lo em três:

1) O ambiente físico, que você vive com seus sentidos e que existe do ponto de vista mais concreto que você consegue conceber. A sala onde você está, por exemplo. As cadeiras, a cor do carpete, o cheiro do café, a textura do papel e o som da voz que fala com você.

2) O ambiente entre as pessoas, e esse também não é difícil de perceber. Pense nos quebra-gelos de começo de reunião. Na diferença entre uma reunião de feedbacks, e em um happy-hour com cerveja. Entendeu mais ou menos? Esse ambiente é o que você mede entre um climão e um reencontro de amigos.

3) O ambiente das ideias, onde as coisas são absolutamente abstratas. Aqui é onde flui o conhecimento, e aqui é onde você pode optar por transmitir uma ideia por repetição e memorização; ou através de experiências participativas e envolvedoras. Importante é entender as motivações das pessoas, os vários tipos de comunicação e como você pode catalisar esse processo.

Fez sentido? Tudo isso é discutível, claro, e nada é uma verdade absoluta. Até reforço meu disclaimer. Mas partindo dessas ideias e se reconhecendo apenas com o papel de facilitar as coisas e essa bonita relação que envolve pessoas e ideias, em muitos sentidos, é que você consegue se achar como facilitador.

E a partir daí, bem… aí é questão de coragem. E sorrir também ajuda 🙂

Por João Vitor Krieger.

Inscreva-se no Workshop Coragem para Multiplicar, com o João Vítor Krieger e o Rodrigo Ferreira. Dia 30 de Julho, aqui na isCool.