Para não falar de crise: Consumo sustentável

Faz bem uns dois anos que eu ouço falar ininterruptamente sobre crise. Quando eu fui montar meu escritório, o conselho é para que não fizesse, porque o país estava em crise. Quando eu quis mudar para um aluguel mais caro, o conselho é que eu não fizesse porque o país estava em crise. Quando eu quis mudar de emprego, sabem qual era o conselho? Poisé.

Eu sei que a situação não está facil. Sei que ano passado e ainda neste ano, milhares de demissões foram feitas e sei que o supermercado está caro, mas a verdade é que a crise (quase) não me atingiu.

Ontem, enquanto jantávamos a gente estava conversando em como 2015 e 2016 têm sido anos bons para nós. O Bruno está no mesmo emprego, logo a renda é a mesma. Eu, que larguei um emprego e comecei um negócio novo, também estou indo bem, mesmo que a minha renda tenha diminuído um pouco.

A verdade, é que de uns dois anos pra cá a gente iniciou um movimento em casa de consumo sustentável e com isso nossos gastos caíram drasticamente. A gente se desfez de um carro que não precisávamos, diminuímos o consumo por impulso, diminuímos as compras parceladas, mudamos para uma cidade mais barata, passamos a confraternizar mais com os amigos em casa do que nos bares carísssimos e, neste ano, o que acabou cortando mais da metade de nossos gastos com o mercado, é o fato de termos diminuído drasticamente o consumo de industrializados. A gente não come mais carne durante a semana, compramos apenas legumes, frutas e verduras, temperos a granel e sem refrigerante. Passamos a consumir roupas de pequenas marcas aqui de Blumenau, compro mais no comércio de rua do que no shopping e aumentamos as refeições em casa.

Todos esses ajustes foram feitos naturalmente. A cada mês a gente encontrava supérfluos na nossa vida que atrapalhava o orçamento, a saúde, a dieta, as ideologias e por aí ia. A gente sabe exatamente o quê gostamos de consumir e não queremos abrir mão, viagens, por exemplo é um deles.  A gente começou a perceber que às vezes gastava o dinheiro de uma viagem legal sem nem perceber, só consumindo de forma enlouquecida, desenfreada, seguindo a cartilha que ensinaram para a gente: consuma muito e seja feliz. Hoje a gente sabe que a verdade é o contrário: consuma menos e seja feliz.

Vemos ao nosso redor muita gente reclamando da crise. Muito porque os gastos aumentaram e a renda não. Outros porque a renda diminuiu e os gastos foram mantidos, mas ninguém quer rever a forma de consumo. Enxergo esse momento como uma ótima oportunidade para promover a mudança de alguns conceitos na nossa vida. Quem não muda pelo amor, muda pela dor. Ainda bem que escolhemos mudar pelo amor lá em casa, e nessa época difícil a gente tem ficado tranquilo.

Esse texto, não é para defender governo dizendo que não há crise, mas sim, para dizer que, com ou sem crise, o consumo sustentável sempre será a chave para uma boa vida, tranquila e com o que importa e hoje, mais do que nunca, a gente quer levantar essa bandeira para o mundo.

Texto escrito por Dani Menezes, nossa facilitadora do 16ª Open Mic – Economia Solidária.

Economia solidária: Do Maranhão para o mundo!

Vocês estão prestando atenção na revolução que anda acontecendo na minha vida? Pois prestem e anotem aí, é daqui para o mundo rsrs.

A gente quando se abre para o Universo e deixa as oportunidades entrarem é capaz de promover coisas incríveis na vida, né!? Larguei o Direito por que estava insatisfeita com a qualidade da minha vida, com a qualidade do resultado que o meu trabalho tinha na vida dos outros, porque ele trazia negatividade aos meus dias e muitos outros motivos. Eu talvez nunca vá saber explicar para vocês o que se passava aqui dentro de mim – deve ser algo que apenas eu e o Bruno (por acompanhar bem, bem de perto) consiga compreender.

O último post foi para contar pra vocês que eu estava enveredando pelo ramo da saboaria artesanal. Pois bem, saí de férias e fui visitar a minha família paterna em Codó, no Maranhão, quase divisa com o Piauí. Fazia parte dos meus planos comprar óleo de babaçu para utilizar como matéria prima nos meus sabonetes. Fazia parte dos meus planos fazer um mini documentário mostrando para vocês como é a vida naquela região. Fazia parte dos meus planos mostrar ao meu professor e ao mundo, que ninguém parou de trabalhar porque ganha bolsa família. Não fazia parte dos meus planos ter esquecido a minha máquina digital..rsrs (mas a gente filmou com o celular mesmo assim).

Chegando lá, meu avô me levou na associação das mulheres quebradeiras de coco para que eu conhecesse um pouco a história delas e como acontecia toda a produção. Comprei 6 litros de óleo e anunciei em alguns grupos que eu estava trazendo, caso alguém se interessasse. As pessoas enlouqueceram. Resultado 1: larguei praticamenteTODAS AS MINHAS ROUPAS em São Paulo e trouxe os meus 23kg de bagagem CHEIA DE OLEO DE BABAÇU. Resultado 2: Papai já mandou quase mais 60 litros de óleo pra mim, desde que eu cheguei em Blumenau no dia 19 de abril. Vou dominar o mundo, ou não vou?

Agora vou explicar melhor toda a situação, sentem aí que lá vem história.

Eu saí do Maranhão em 98 mas o Maranhão nunca saiu de mim. Eu já havia bolado na minha cabeça trocentos mil planos desde voltar para São Luís a fazer algo que impulsionasse o meu estado, tão judiado pela aquela família que não devemos nomear. Com exceção de levar os amiguinhos para fazer turismo sempre que a gente tem oportunidade, quase todos os meus outros projetos falharam, porque eu não fazia ideia de por onde começar. E não tinha ideia até o dia 07 de abril, quando fui visitar a associação em Codó e passei a pesquisar tudo a respeito do babaçu, que vou falar aqui de forma bem suscinta.

A maior parte das palmeiras de babaçu está no Maranhão, mas estados como Piauí, Tocantins e Pará, também são beneficiados. O babaçu é responsável pela renda de quase 300 mil mulheres, que são conhecidas pelo nome de quebradeiras e que enfrentaram e continuam enfrentando uma luta diária para conseguirem seguir com o seu trabalho. Muitas palmeiras estão dentro de fazendas particulares, que passaram a impedir a entrada das trabalhadoras para pegar o coco. Mais criminoso ainda, é a atitude de tacar fogo nos babaçuais apenas para prejudicar as mulheres ou para transformar em pasto (um dos motivos pelo qual cortei drasticamente a carne na minha vida, mas isso é papo pra outro texto). Em 1997 foi aprovado no município de Lago do Junco, no Maranhão a lei do babaçu livre, que basicamente tenta regulamentar a atividade das quebradeiras, impondo restrições a derrubada das palmeiras e evita que os fazendeiros impeçam a entrada das mulheres em suas propriedades. No entanto, tal lei ainda é municipal e beneficia cerca de 10 mil mulheres no total e estamos nos cafundós do Nordeste, sabem o que isso significa né? Lei é luxo!

Aos poucos, as quebradeiras foram se juntando e formando associações para que pudessem ser mais fortes ao enfrentar tantas batalhas. Em 1995, foi criado o movimento interestadual das quebradeiras de coco babaçu (MIQCB), que luta pelo direito a terra e a palmeira para que possam trabalhar e manter a natureza estável, além de pleitearem o reconhecimento das quebradeiras de coco como uma categoria profissional.

Do MIQCB foram surgindo pequenas associações, cada uma em sua região. A que eu visitei foi a de Codó, comandada pela dona Áurea e bem cuidada pela dona Ló. Mas há várias outras espalhadas por aí.

Da palmeira quase tudo se aproveita. Da palha, elas fazem artesanato e cobertura de suas casas, da casca fazem carvão, das amêndoas, azeite, óleo, sabão, sabonete, pasta de brilho e a farinha, conhecida como mesocarpo e, das sobras é feito o que chamam de torta, que serve para alimentação animal. É um daqueles tesouros brasileiros que ninguém valoriza, que ninguem aproveita. Fui pesquisar e descobri que a quase 10 anos, o Brasil exporta paraos Estados Unidos e Europa, e o salões de  Milão desde 2013, utilizam escova de babaçu em suas clientes. Enquanto isso, nós, vamos ficando para trás. Judiando de nossas guerreiras, condenando-as ao esquecimento, utilizando em nossa casa, produtos caros, de péssima qualidade e cheios de química. As pessoas falam “antigamente, o povo comia ovo e bacon no café da manhã e ninguem tinha nada”, é claro, eles não se envenenavam constantemente como a gente costuma fazer.

Eu não preciso dizer que fiquei apaixonada por aquilo tudo. É um trabalho de economia colaborativa. É um trabalho que fortalece as mulheres. Elas, são feministas e nem conhecem esse termo. Muitas, iniciaram como quebradeiras para não depender do sustento do marido. Outras, cansadas de serem abusadas, encontraram no trabalho de quebradeira uma forma de ser independente, com uma renda de R$100,00 por mês, que é o suficiente para não deixar sua família morrer de fome, em um dos estados mais pobres desse País. São mulheres que poderiam ter baixado a cabeça e desistido, mas não. Elas reagiram, lutaram, batalharam, tiveram imensas conquistas, que eu, com meu diploma de advogada nunca terei nessa vida – eu não sei o que é passar fome, eu não sei o que ter necessidade. Eu sei o que é reclamar de barriga cheia, isso eu sei.

No final das contas, eu iniciei um trabalho aqui na região Sudeste e sul de formiguinha. Um trabalho que movimenta a renda das mulheres do meu amado Maranhão. Um trabalho que de forma tímida, melhora a divisão de renda desse país. Toda pessoa que compra um óleo comigo e não compra o que está no mercado, coloca um prato de comida na mesa de alguém lá em Codó. Ela não contribui paara que o CEO de uma grande indústria compre uma lancha nova, ou vá viajar de primeira classe, NÃO, ela dá a esperança que de repente a neta da Dona Ló, possa ter estudo e não ser analfabeta como boa parte das quebradeiras, que ela aprenda a falar inglês, que ela não passe necessidade, que ela possa ter um diploma. Essas coisas que a gente sonha pra gente que está por aqui mas que eu não sei por qual motivo entendemos que não pode ser um direito delas. Sabe aquela história que pobre tem que andar de ônibus enquanto rico é que anda de avião? Então, poisé..é isso.

E, se não fosse a satisfação imensa que invade o meu peito ao estar fazendo isso, os presentes que eu tenho ganhado é algo incrível. Praticamente, cada pessoa que compra algo comigo, vira uma amiga aqui no facebook. Vira e mexe o Bruno pergunta “que tanto você faz nesse facebook?” as respostas variam “tô papeando aqui com uma menina que conheci lá na comunidade”, “tô pegando uma receita aqui com uma menina que comprou óleo” ou ” tô combinando aqui de tomar um cerveja que a fulana de tal”. Sabe aquela energia boa? Elas querem o óleo pra passar no cabelo, pra usar na cozinha, pra conhecer, mas se interessam pela história toda, abraçam o meu sonho, divulgam em suas redes sociais, assim, por pura satisfação. Antigamente, 98% dos meus clientes só reclamava até mesmo quando a gente ganhava. Agora não. Eu vendo, sigo um sonho, ganho um dinheiro, faço amiguinhas, meu coração fica feliz. É um ciclo desses que a gente só pode agradecer né!? E eu vou repetir de NOVO o que eu sempre digo: Se você quer mudar sua vida, apenas COMECE.

É isso..Fiquem com uma musiquinha do babaçu😉 Apresentação das quebradeiras de coco babaçu!

Ei! Não derruba esta palmeira
Ei! Não devora os palmerais.
Tu já sabes que não pode derrubar,
precisamos preservar as riquezas naturais.

O coco é para nós grande riqueza,
é obra da natureza, ninguém vai dizer que não.
Porque da palha só se faz casa pra morar
Já é meio de ajudar a maior população.

Se faz óleo pra temperar a comida,
é um dos meios de vida pros fracos de condição
Reconhecemos o valor que o coco tem,
a casca serve tambem pra fazer o carvão.

Com óleo de coco, as mulheres caprichosas
fazem comidas gostosas de uma boa estimação
Merece tanto seu valor classificado que,
com óleo apurado, se faz o melhor sabão.

Palha de coco serve pra fazer chapéu,
da madeira faz papel ainda aduba o nosso chão
Talo de coco também é aproveitado,
faz quibane, faz cercado pra poder plantar feijão

A massa serve pra alimentar o povo.
Tá pouco o valor do coco, precisa dar atenção
Para os pobres, este coco é meio da vida
Pisa no coco, Margarida! E bota leite no capão

Mulher parada, deixa de ser tão medrosa!
Seja um pouco mais corajosa, segura na minha mão
Lutemos juntas com coragem e com amor
Pra o governo dar valor a esta nossa profissão

Santa Maria é a nossa companheira
Grande força verdadeira que proteje esta nação
Que fortalece a nossa luta pouco a pouco
E a mulher que quebra o coco pede a sua proteção

Texto escrito por Dani Menezes, nossa facilitadora do 16ª Ed. do Open Mic – Economia Solidária.